SOBRE AS DIFERENÇAS SOCIAIS
E A ANARQUIA - Parte 1
INTRODUÇÃO
“...como todo pensamento humano, o pensamento de Marx – por genial que seja- não é infalível: à parte o fato de que é difícil de captar, porque está incessantemente em movimento, comporta fraquezas e falhas (já pressentidas pelos “anarquistas” de seu tempo: Stirner e Proudhon) e, se é sempre útil beber em sua fonte, é preciso fazê-lo com um espírito crítico sempre desperto e, mais ainda, desconfiando como da peste de todo dogmatismo.”1
Daniel Guerin (In O Futuro Pertence ao Socialismo Libertário, pp.72)
As palavras inaugurais deste texto serão referentes ao leitmotiv do mesmo.
Primeiro ponto, é necessário escrever que este será lapidado nas fonte libertárias, isso significando que para muitos leitores, especialmente aqueles que não têm um contato maior com o ideário anarquista poderão gerar qüiproquós, que poderiam ser evitados com uma maior leitura de material anarquista e mesmo se tiverem oportunidade, de participarem de eventos proporcionados pelas diversas organizações libertárias existentes na sociedade pseudo-democrática em que vivemos.
Apresentado de onde o escritor formou o seu corolário de idéias, seguir-se a o presente texto.
Lentamente os indivíduos deixam a consciência de uma individualidade plena e irrestrita (mas não sem muita relutância), encontrando-se na necessidade de união, de cooperação e de fraternidade com os outros (um outro eu que não eu, Sartre), levando em conta as conseqüências que estes atos desenvolvem na individualidade ao mesmo tempo que as dificuldades individuais podem ser resolvidas ou exacerbadas em sociedade.
Em cada período, a sociedade se moldou de certa maneira, de acordo com as suas limitações oriundas dos aspectos humanos em todos os sentidos. Em cada período também, não uma mais diversas sociedades existiram ao mesmo tempo como um céu estrelado, mostrando a diversidade dos homens na sua relação com o mundo, originando as mais diversas interpretações deste mesmo mundo, sendo importante salientar que isso não implica em dizer que existe uma correta ou uma errada, a existência de tais sociedades com esta liberdade de interpretação foram e são importantes sendo que o respeito para com essas sociedades e interpretações é imprescindível, fato que não ocorre atualmente no sistema pseudo-democrático em que vivemos.
Muitos destes homens a partir do aprofundamento do conhecimento existente na sociedade, deslumbram-se, entendem-se, por várias vezes rompem com os grilhões que identificam ser uma exploração desenfreada e severa gerada também pelos os homens, seus semelhantes; ao romper estes grilhões estão deixando de ser uma mera coisa desvalorizada, sem sentido e quebram com a influência ditatorial da propaganda, da ideologia dos vencedores, deixando de pensar como tal coisa desvalorizada, vencida e escrava.
A mass-mídia está rigidamente controlada pelos cartéis privados, oligopólios das grandes agências e órgãos do Estado, Estado este, refém e lacaio do mercado internacional (FMI, Banco Mundial etc) manipulado por um grupo pequeno de capitalistas formado por indivíduos de vários países do globo.
Os grilhões identificados são agentes produtores e produtos formados por uma ideologia de “verdades obscuras” e promessas fúteis, moldando os trabalhadores rurais e urbanos, em marionetes produtoras de riquezas que vão se aglutinar nos poucos bolsos e sem fundos, sem limites de uma minoria multinacional próspera, astuta e perversa.
Multinacional no sentido de haver em todos os países, ladrões representados pelos proprietários financeiros, industriais e fundiários unidos mais do que os proletários, em um único propósito de lucro máximo. Não é importante se o ladrão é nacional ou não, porque a atividade que promoverá trará conseqüências perversas ao conjunto social, serão iguais nacionais ou não.
As conseqüências perversas e miséria do povo assola igualmente o grupo destes homens nacionais ou não, e seus bolsos por pertencerem na mesma sociedade em que tais miseráveis “ainda existem”. Mas, leia com cuidado esta parte, podem à custa destes mesmos miseráveis, segregar um mundo, um compartimento onde este grupo privilegiado pode viver de uma forma plena e segura longe do resto da sociedade, eles tem acesso ao bem estar pleno graças aos miseráveis de ontem, de hoje e com certeza, se não fizermos nada, de amanhã.
Esses grupos de privilegiados não o bastante de roubar da maioria, produzem missões para outros mundos. Não seria este o sinal de uma busca de um novo local para fugir da miséria e da destruição de uma Terra arrasada que eles próprios geraram e continuam a produzir?
Se há riquezas e esplendor em meio a dor e pobreza, com certeza não serão tão ricos tais homens nacionais ou não; se há liberdade em meio a disciplina autoritária, com certeza não serão tão livres como gostariam e sua democracia assegurada por uma constituição sobre suspeita sempre será letra morta ou ressuscitada a seu bel prazer, para manter sua consciência assassina tranqüila em meio a dor e a morte que gera e o cerca por muros altos e eletrificados. Bakunin nos diria semelhantes palavras:
“Cada homem que conheceis e com o qual vos encontrais em relação, direta ou indireta determina, mais ou menos, vosso ser mais íntimo, contribui a fazer de vós o que sois, a constituir vossa personalidade. Em conseqüência, se estais cercados de escravos, mesmo que seja senhor deles, implica que sois também escravos, pois a consciência dos escravos não pode refletir senão vossa imagem aviltada.”2
É necessário que todos tenham acesso a riqueza e a liberdade (fato nada fácil e que está na agenda de várias vertentes socialistas), primícias de uma democracia real, não essa que impõe partidos para nos representar; não esta pseudodemocracia que cria mastins verde-olivas devoradores de quem o alimenta; não esta democracia fac-símile vulgar que gasta montes de dinheiro em projetos de idoneidade duvidosa ao seu bel prazer avalizados por pessoas que se dizem “especialistas”, impondo aos milhões de habitantes deste país à viverem em um estado de miséria e intolerância, reflexos na violência e degeneração em que se encontram e que não podem expressar sua insatisfação de uma forma democrática porque a pseudodemocracia não deixa e a polícia que seria um instrumento para segurança da democracia, se torna um agressor e defensor da pseudodemocracia.(vejam os casos de Seatle em dezembro de 1999, de Porto Seguro em abril de 2000 e de Seul em maio de 2000, apenas como ilustrações dantescas dentre as inúmeras que arrebentaram e continuam a surgir na pseudodemocracia e no autoritarismo real instalado no mundo do imperialismo estadunidense).
Mas, apesar disso, existem as comunidades periféricas, as chamadas bases sociais onde há pessoas empenhadas a lutar contra esta condição deplorável que muitos acham inevitável. Tais lugares são os centros nevrálgicos da sociedade mas menosprezado3, neste ambiente que a política libertária se forma, se desenvolve e permanece.
Política formada no princípio literal de democracia, onde os cidadãos aprendem o difícil exercício de conviver com seu semelhante de uma maneira prazerosa, harmônica e respeitando as diferenças de cada um, procurando desta maneira, diminuir os malefícios desenvolvidos e aprimorados pelo Estado e pelo regime econômico imposto como um dogma absoluto, denominado capitalista (a ditadura do capital, que não significa a do trabalho) e que se traduz na maior ameaça à humanidade e à própria Terra até o presente momento.
Por Lucifer. inverno de 2000.
