Reacionário
Por Edgar Rodrigues, in "ABC do Anarquismo", editora Assirio e Alvim, 1976
É o indivíduo sectário da reação política e social conservadora de velhos sistemas, costumes e tradições seculares.
É assim que os clássicos definem o comportamento antiprogressista, no campo político, social, familiar e religioso das camadas dominantes.
Mas o reacionário sendo “pessoa ou pessoas da reação”, princípio ou idéia baseada em castas, hierarquias militares, políticas, religiosas, profissionais, culturais e sociais, elitismo familiares, raciais, de cor, de sexo, regionais, da nacionalidade e de classes, é por formação um indivíduo deformado psiquicamente pela imposição dum condicionamento pré-estabelecido entre as famílias mais “importantes”.
Para sustentar, justificar, explicar o princípio retrógrado advindo desse termo, implantaram regimes absolutistas, autoritários, ditatoriais, elaboraram leis especificas, nomearam o Mestre-escola e o Padre para injetarem nas frágeis mentes infantis a convicção de obediência cega aos “superiores”; editaram conceitos distorcidos, criaram a censura para vigiar “as ovelhas ranhosas” e os tribunais com poderes para condenar; construíram cadeias para castigar, inventaram o torturador e o carrasco para executar os mais recalcitrantes.
Para fazer valer e prolongar o poder, a ação objetiva e subjetiva do Reacionário, tornou-se obrigatório divulgar e decorar o hino nacional, o amor à bandeira, a obediência aos evangelhos, o “respeito” aos melhores situados na escala política, econômica e social, às autoridades, concluindo pela exaltação do patriotismo; incentivou-se o cultivo das tradições familiares, o elitismo, da subserviência às normas tradicionais, superioridade local, regional e nacional.
Gerações e gerações nasceram e morreram educadas dentro destes princípios de desigualdade, que o tempo transformou em religião de Estado, em costumes de todos, ao ponto de o mais liberal dos povos, dos políticos em geral e das camadas dominantes em particular, resistirem subjetiva ou ostensivamente à idéia da igualdade de direitos e de possibilidades para todos.
A deformação é tão poderosa, que virou forma de vida, de comportamento! E se evidencia nas inúmeras camadas populacionais, principiando pela mais humilde e terminando na mais poderosa, atravessando uma escala de valores e posições culturais, sociais, profissionais e regionais, de modo chocante.
No campo profissional, as “superioridades” existem dentro e fora das mesmas especialidades: no ensino, cada mestre acha sua matéria mais importante que a do colega; nas famílias e nos locais de residência, sobressai a defesa incondicional e instintiva do elitismo e da hierarquia!
Isto é, sem dúvida uma forma generalizada de vida reacionária, baseada em conceitos injetados objetiva e subjetivamente ao longo dos séculos.
Segundo o psicólogo soviético Kornilov, “reação resulta da variedade de preparo quantitativo e qualitativo a quem tem sim submetido o homem; é um organismo vivo que se manifesta em decorrência do ambiente circundante.
Cada indivíduo carrega consigo forças inatas capazes de revelar-se e sofre uma aceleração ou diminuição, de acordo com as potencialidades energéticas de cada um”.
Ora, se um indivíduo “carrega energias e potencialidades psíquicas, como está provado, que podem ser aceleradas ou diminuídas, proporcionalmente à influência do meio ambiente circundante”, cada um de nós em particular e a sociedade em geral, responde incontestavelmente pelo agravamento das más condições do indivíduo, ao impor-lhe uma educação e uma instrução defeituosas, ante uma vida desigual de miséria e de temores, uma disciplina de tradições e costumes altamente alienantes!
Reacionário é, portanto, todo aquele que, exibindo rótulos de liberdade, de igualdade e de fraternidade nos campos da política, da economia e da cultura, da religião ou da arte, se opõe pela ação objetiva e subjetiva à mudança dos costumes que têm permitido que o homem seja e continue um escravo do homem: o pai, dono do filho; o marido; o general, tutor dos soldados; o padre dono de Deus; e o governo, senhor todo poderoso, pai incontesti da “verdade, do direito, da razão, da justiça, o homem que dispõe da vida e morte dos seus compatriotas, herói quando mata e herói quando morre!”.
Para mudar este tipo de reação é preciso fazer-se três revoluções1:
1º Revolução política;
2º Revolução econômica e social;
3º Revolução do ensino e da educação, a revolução consciente, dentro e fora do homem!!!
1 Nota da FOSP-Campinas: É importante que o entendimento que fazer a revolução, não é seguir uma seqüência (há grupos, partidos e vanguardas que usam etapas, programas de transição para exatamente criar um modelo “revolucionário” e isso é perigoso, além de submeter as forças revolucionárias a uma camisa de força. Assim, uma revolução não segue uma ordem numerada, e sim abarca, a luz do pensamento libertário, a pluralidade da ação, nas várias áreas, simultaneamente.
