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O VALOR EDUCATIVO DA ASSEMBLÉIA - PARTE DOIS


De onde vinham, em definitivo, esse homens e mulheres que não se
deixavam manipular facilmente e fartos de pastores e falsos profetas,
rechaçaram a autoridade e optaram pela ação direta? Vinham do
mundo do trabalho. Por conseguinte, eram cidadãos simples, e por
isso, para mim, motivo de reflexão para quem entende e espera sempre
que as minorias dirijam e governem. A este propósito não posso
menos evocar as imagens daqueles militantes cenetistas (da CNT-ES) de
Aragon, que são os que mais tinha conhecimento por ter vivido como
eles os acontecimentos mais marcantes de minha trajetória
libertária. Pessoas normais e corriqueiras; mas dotadas de
sensibilidade e de um acurado sentimento de independência.



Camponeses na sua maioria, muitos haviam aprendido a ler e escrever
sem ter pisado em uma escola em toda sua vida. Excelentes
conversadores em geral, se expressavam com soltura, pondo em grandes
apertos várias vezes os "notáveis" da sociedade ao
discutirem assuntos concretos de interesse local ou regional com
eles. Alguns, dada sua dedicação a leitura que a CNT
disponibilizava e despertava neles, através de suas incontáveis
trocas, chegaram a dominar a linguagem escrita de tal forma, que
passaram a ser colaboradores assíduos dos periódicos ou revistas do
movimento.



Comparando agora o nível de consciência social daqueles
trabalhadores que mesmo carecendo de títulos acadêmicos, e de uma
cultura oficial, chegaram adquirir uma bagagem humanística muito
superior ao que se tem um cidadão mediano contemporâneo, é motivo
para perguntar-se que se tem passado em tão poucos anos e de onde
retiravam suas energias os trabalhadores da CNT. Responder a essa
pergunta não é difícil quando se tem valorizado previamente a
liberdade - cujas fontes têm de beber o ser humano para alcançar
seu pleno desenvolvimento que permite o exercício dessa liberdade,
dentro, naturalmente, dos limites que cada indivíduo tem pela
relação com os outros e sua união em preservar a liberdade
coletiva.



Na base de minha experiência pessoal e partindo do valor
determinante que tem para o homem a liberdade, eu pensaria que a
formação do caráter independente e aberto que caracterizou a
maioria daqueles trabalhadores contribuiu em certa medida o fato de
não haver sofrido durante sua infância os efeitos repressivos e o
dogma que a escola vem, desde séculos, infligindo as crianças e
fazendo deles seres condicionados a obediência, dependentes e
passivos portanto, e prontos para aceitar sem resistência mais tarde
o mandarinato de seus opressores. Claro que isto por si só não pode
ser suficiente para que um tão extraordinário fenômeno se
produzira, já que, na União Geral dos Trabalhadores, essa onda de
expansão criativa não teve lugar, pese o bom número de seus
afiliados e tão pouco haviam sofrido os condicionamentos da escola.
É precisamente o contraste entre ambos os movimentos sindicais o que
me tem induzido a refletir sobre o papel educador da assembléia,
cujos estímulos beneficiaram sempre os homens da CNT graças a
estruturas abertas a participação responsável de todos  seus
membros, em oposição  as fórmulas hierárquicas e
burocráticas que regem a UGT desde que o grupo fundador rompera com
a Primeira Internacional dos Trabalhadores dando nascimento a essa
nova corrente sindical marxista que por caminhos bem equivocados
pretendem todavia emancipar os trabalhadores. E digo equivocados
porque o homem se faz realmente homem tendo acesso ao conhecimento de
sua identidade pessoal, de modo responsável, mediante o livre
expressão de seu pensamento em condições de igualdade com seus
semelhantes e por livre cooperação com eles nas coisas que um
considera importantes para si mesmo e para os demais. E é a
assembléia a instituição na que pode levar a cabo sua experiência
se nela temos as condições necessárias para um autêntico
funcionamento coletivo, a saber: que favoreçam ao máximo o nível
de participação, e isto o mesmo para tomar decisões e compartilhar
responsabilidades que para somar energias na realização de um
projeto comum. São múltiplos e vão concatenando os estímulos que
provoca a assembléia e que dinamizando o indivíduo, ativam o
processo de desenvolvimento  de suas capacidades genuinamente
humanas.



Vejamos: no princípio, se é consciente de sua responsabilidade ante
ao grupo e seus problemas, o indivíduo participa da assembléia com
ânimo de analisar, criticar e apontar iniciativas. Como a vez
experimenta uma necessidade imperiosa de afirmar-se  e em função
dessa necessidade busca aprovação dos demais, isto suscitará o
outro desejo: de fazer os debates e ser cada vez mais útil a
assembléia. E pelo afã que sente de atrair-se a simpatia de seus
colaboradores, se esforçará em não discordar demasiado e escutar
com respeitosa atenção seus pronunciamentos ao objeto e
contrastá-los com o seus próprios e poder elaborar conjuntamente as
resoluções que mais satisfaçam a todos.



A saber: que por esse mesmo desejo de aprender, de coadjuvar e de ser
o mais oportuno e convincente no momento, haverá chegado a
necessidade de cultivar a linguagem; e a medida que for aperfeiçoando
esse precioso instrumento e adquirindo o domínio da palavra, se
sentirá  mais seguro de si, experimentará maior avidez por
leitura, aumentará seu saber e fará o caminho do conhecimento e
compreender melhor os demais e, em definitivo, a ser mais tolerante e
respeitoso com todos. Essa dinâmica que faz com que a assembléia
não seja só um espaço onde se discute e se constrói uma nota de
necessidade e de possibilidades de cada momento, e sim, também o
martelo que vai forjando as mulheres e homens a luz dos
pronunciamentos e das resoluções elaborados conjuntamente. E é
assim como os associados da CNT, ao participarem dos debates que o
projeto sindical  e os problemas cotidianos suscitavam na
assembléia, foram estruturando uma consciência solidária e um
comportamento crítico, da mesma forma que o coletivismo aragones,
fazendo da assembléia o centro de todo o desenvolvimento
socioeconômico, colocando em pé o instrumento que possibilita a
forja daqueles homens em seu projeto de uma sociedade nova mais
igualitária e justa.






Retirado
e traduzido do livro Las Colectividades de Aragon, Un
vivir
autogestionado promesa de futuro. Félix Carrasquer.


Tradução
Federação Operária de São Paulo seção Campinas, sobre licença
CC – Creative Commons:
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.5/br/


Copylefty:
FOSP Campinas (2009)


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