
O trabalho e o pão para todos
Neste tantos século de exploração do homem pelo homem, o produtor de
toda riqueza tem sido escravizado e consumido apenas o mínimo indispensável à sua
sobrevivência ( e às vezes menos); ampliada a cultura popular e emancipados os
trabalhadores de uma sombria ignorância e de uma teologia enervante que educava
para submissão e o sacrifício, a fórmula quem quiser comer que trabalhe
aparecerá como a expressão mais acabada da justiça e da liberdade.
Qualquer construção econômica e social que não a tiver por base e por ideal
imediato, não passará de um novo engano, de uma nova escamoteação dos frutos do
esforço revolucionário.
Para nós, a concretização desta fórmula é primordial; em torno dela podem
agrupar-se todos os homens bons de coração, homens de ética social, sem distinção
de partidos e de posições. Todos aqueles que consideram justo que um homem
viva do suor de seu rosto constituem, de fato, um só partido e devem formar uma
mesma frente de batalha.
Explicaremos nosso conceito de trabalho. Adam Smith considera trabalho
produtivo apenas o trabalho chamado material. Não há dúvida que, na realidade, o
processo de trabalho é um conjunto de esforços intelectuais e físicos (concepção,
elaboração, preparação, execução, etc) que, se sob o regime do artesanato dá-se num
só indivíduo ou numa divisão apenas perceptível do esforço, na economia moderna
expressa-se como coordenação de funções perfeitamente especializadas.
“Portanto – disse um economista moderno – não faz sentido separar estas
classes de trabalho diferentes e afirmar, v.g., que o engenheiro que faz o projeto, o
auxiliar de escritório que traz as correspondências (que faz pedidos) e o contramestre
que vigia os operários propriamente ditos e que lhes define o que devem fazer, não
realizam um trabalho produtivo e que somente o fazem “de fato' os trabalhadores
manuais; conseqüentemente, que apenas estes últimos efetuaram um trabalho
produtivo”.
O trabalho, numa sociedade moderna, é uma conjunção de forças técnicas e
manuais e isto tende a ser cada vez mais geral, na medida em que o técnico pode
simplificar sem cessar o esforço físico e transportar para máquina a maior parte das
funções penosas. Tanto o sábio em seu laboratório, gabinete ou cátedra, quanto o
técnico ou o operário são forças de trabalho socialmente útil e necessário. O que diz
respeito a estes esforços e à sua intervenção dirigente e agente na produção só pode
ser motivo de júbilo. Mas será que alguém poderia nos dizer o que é que produzem os
capitalistas, os proprietários, os acionistas, os intermediários do atual regime
econômico? O trabalho destas pessoas, ao qual referem-se alguns velhos economistas,
é segundo as palavras de Proudhon, “uma ficção do antigo direito feudal que passou
á moderna economia política e se resolve numa entrega quase gratuita do operário ao
capitalista especulador e proprietário, última forma de especulação do homem sobre o
homem... Na realidade, somente o trabalho físico e intelectual é produtivo”.
Não com base em concepções socialistas proudhonianas, mas sim em honra
a um sincero reconhecimento da verdade, Germán Bernacer, um autor espanhol de
textos econômicos, num livro publicado em 1925, Interes Del Capital, sustenta que a
única fonte de receitas deve ser o trabalho produtivo e que cabe suprimir o custo do
capital, fonte não-laboriosa de benefícios econômicos, mesmo no regime de produção
individualista. Compare-se esta idéia com as modernas concepções dos tecnocratas
estadunidenses.
O que nós desejamos é algo parecido: a supressão de receitas não-legitimas,
isto é, daquelas não produzidas pelo trabalho físico ou intelectual socialmente útil, o
que equivale a uma profunda transformação econômica que coloca no centro da
economia, não a especulação e o lucro, mas sim o trabalho e o produto para o
bem-estar de todos.
Diego Abad de Santillán